O desafio silencioso da gestão de projetos no terceiro setor
- Elisângela Machado

- há 1 dia
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Uma leitura sobre cultura organizacional, maturidade em gestão de projetos e as competências em evidência no terceiro setor. Por Elisângela Machado

Ao longo dos últimos anos, acompanhando de perto organizações do terceiro setor em diferentes estágios de maturidade, uma constatação se repete: propósito, por si só, não sustenta impacto.
O impacto acontece quando boas intenções se transformam em capacidade organizacional.
E é justamente aí que a gestão de projetos deixa de ser um tema operacional para ocupar um lugar estratégico. O Panorama Gestão de Projetos Brasil 2026 da Artia, que ouviu 1.265 profissionais em todo o país, ajuda a iluminar esse debate ao comparar o cenário geral com o recorte específico de Associações, ONGs e Entidades, revelando padrões, lacunas e oportunidades que não podem mais ser ignoradas.
Os dados mostram que a gestão de projetos no 3º setor está em processo de consolidação, mas ainda longe de uma maturidade sistêmica. A maioria das organizações se concentra nos níveis intermediários de maturidade, o que indica familiaridade com práticas e métodos, porém baixa institucionalização.
Projetos existem, entregas acontecem, mas dependem excessivamente de pessoas-chave, improvisos e esforços extraordinários das equipes. No comparativo com o cenário geral, onde mais da metade dos respondentes declara insatisfação com o nível de maturidade em gestão de projetos, no 3º setor essa fragilidade tem consequências ainda mais sensíveis, pois compromete diretamente a estruturação institucional e a capacidade de gerar impacto social de forma contínua.
Mais do que ferramentas ou metodologias, o principal entrave identificado pelo relatório é cultural. A cultura organizacional aparece como o maior desafio tanto no panorama nacional quanto no recorte do terceiro setor, mas com efeitos mais profundos nas organizações sociais. Falta clareza estratégica, há baixa adesão a práticas de gestão, dificuldades de comunicação e pouca integração entre projetos e missão institucional.
Em muitos casos, a gestão de projetos ainda é percebida como burocracia ou exigência externa de financiadores, quando deveria ser entendida como um instrumento de proteção do propósito, das equipes e dos próprios beneficiários.
Essa fragilidade cultural se reflete nos resultados. Embora o escopo dos projetos seja relativamente bem controlado, prazos e orçamentos seguem como pontos críticos, especialmente em contextos marcados por mudanças frequentes, restrições de recursos e alta complexidade social.
A gestão de riscos e incertezas, elemento central em ambientes voláteis, aparece como uma das competências menos desenvolvidas. No cenário geral, mais de um quarto dos respondentes avalia que seus projetos geram baixo impacto estratégico. No terceiro setor, esse dado é particularmente alarmante, pois o impacto não é um subproduto: é a razão de existir das organizações.
Ao mesmo tempo, o relatório aponta um movimento importante de inflexão.
As competências consideradas prioritárias para os próximos anos revelam uma transição clara no perfil esperado dos gestores de projetos. Ganham relevância a análise de dados, o pensamento estratégico, a comunicação, a liderança adaptativa e a capacidade de lidar com riscos e incertezas.
Não se trata mais apenas de executar bem um plano, mas de interpretar contexto, tomar decisões em cenários ambíguos e conectar projetos a uma visão institucional de longo prazo. O terceiro setor começa a reconhecer que profissionalizar a gestão não significa perder sensibilidade social, mas ampliar a capacidade de gerar impacto com consistência.
O que os dados do Panorama 2026 nos dizem, em última instância, é que o desafio do terceiro setor não está em copiar modelos do setor privado, mas em construir soluções próprias, alinhadas à sua missão e à sua realidade.
Transformar propósito em impacto exige método, intencionalidade e liderança. E essa não é mais uma agenda do futuro, mas uma necessidade do presente.
Agradecimentos ao Guilherme Moraes pela parceria e abertura dos dados do terceiro setor.
Publicação original no Linkedin de Elisângela Machado - Autorizado para Movimento Mulheres 3S.




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